1. Estava aqui lendo o texto da Tati sobre o “casamento do ex” e tive que rir. A vida deu tanta volta na minha vida. Olha onde eu vim parar. 

    Tá certo que nunca tive um relacionamento muito normal com meus ex-namorados. A maioria, pelo menos. Tinha lá quase 18 anos quando fui no casamento de um dos primeiros. Foi uma sensação um pouco estranha, no início deu um nó no estômago, mas quer saber da verdade? Foi uma daquelas coisas tipo injeção, sabe? Bate um friozinho na barriga na hora, você pensa que vai doer, vai doer, putaquepariu, vai doer! Mas não doi, quando você vê já acabou e você ainda saiu do consultório com um pirulito de abacaxi na boca.

    -Pausa para pegar pirulito, porque deu muita vontade.

    Eu lembro de bastante coisa desse dia. Eu fui uma dessas loucas que teve muitos romances dentro de um mesmo círculo de amizades, então esbarrei com muitos exs… Era o casamento do Felipe. Ou o Pê, como eu chamava carinhosamente na época. Foi um daqueles rompimentos tranquilos, em que os dois são muito jovens, decidem que embora curtam muito um ao outro, não dá pra chamar aquilo de “amor”. Daí eu falei: “Pê, desculpa, mas eu sou uma garotinha ainda. Preciso me apaixonar por canalhas, quebrar a cara, me aventurar com homens incríveis ou nem-tão-incríveis, sentir borboletas no estômago e meus pés saindo do chão. Isso aqui tá tudo muito mais ou menos. Mais ou menos não funciona para mim”. Ele contestou de alguma forma vaga e sem força. Ele também estava interessado em sentimentos maiores mas todo fim de namoro tem que seguir um roteiro. O papel dele era resistir. Mesmo que bem mediocremente.

    Pois bem, X anos depois, lá estávamos nós. Para minha sorte eu estava magra, meu cabelo tinha resolvido acordar de bem com a vida, e eu tinha terminado de ler dois belos clássicos, de forma que poderia enfrentar qualquer conversa pretensamente intelectual com alguma dignidade. Tinha achado um vestido legal (e que não era branco. Uma vez usei um vestido branco para um casamento. Juro que não foi intencional, mas algum dia eu conto essa história).

    Cheguei, cumprimentei os exs que estavam sentados quase todos do mesmo lado, e fui para o lado de um amigo. Ficamos ali durante a cerimônia reparando na noiva, que estava maravilhosa, nos padrinhos e madrinhas, que usavam uma variação de azul… Ei, não era isso que eu tinha comentado com ele uma vez? E então a festa. O sushi, o cordeiro, as rodadas de tequila, a cerveja que eu adorava, o bolo que eu tinha descrito, o suco de melancia, o vinho que eu tinha apresentado para ele, os enfeites de mesa da loja pela qual eu era apaixonada, os castiçais, as velas, a roupa dos garçons, os docinhos diferentes, os canapés, tudo, tudo, tudo como eu um dia havia planejado.

    Quando ele estava passando, tirando foto com os convidados na mesa e toda aquela coisa chata, fez uma cara de surpresa ao me ver. Tirou a foto sorrindo torto, e foi embora. Mais tarde, quando a banda já estava tocando, nos encontramos perto da fonte de chocolate (que também era ideia minha).

    Ele deu um “oi” sem jeito. Eu apenas sorri, balancei a cabeça meio que reprovando tudo aquilo, e mergulhei o morango no chocolate, rindo, rindo muito.

    -Gostei da festa. Muito legal. Se eu planejasse um casamento um dia, ia ser do mesmo jeito. Sem tirar nem pôr.

    Ele continuou com o sorriso sem-graça.

    -Quem organizou isso tudo? Você?

    Ele apenas acenou positivamente com a cabeça.

    -É, não tem muito a cara da Rebeca. E ela nem gosta muito de morangos, né?

    Ele fugiu do assunto, começou a perguntar como eu estava, o que estava fazendo da vida e aquelas coisas. Mas no final ainda passei de fininho por ele e perguntei: “O salão já estava ocupado no sábado? A gente tinha concordado que sexta-feira era um péssimo dia para um casamento.”

    3 weeks ago  /  0 notes

  2. Eu devia ter uns quatorze anos naquela época. Me sentia um verdadeiro peixe fora d’água na escola. Pra mim era estranho as menininhas querendo conversar sobre beijinhos nos meninos, os meninos querendo falar sobre quem ou não eles estavam comendo, o grupinho descolado esticando fileirinhas no banheiro. E eu?

    Acho que era uma terça-feira aquele dia que você magicamente apareceu para me resgatar. Lembro cada segundo. Meu namorado estava trabalhando até tarde no escritório do pai dele, eu estava particularmente feliz, e nada fazia mais sentido do que sair correndo pelo gramado até o laguinho do parque, estender uma canga e passar a tarde inteira olhando as nuvens e ouvindo suas sabedorias.

    Quando a gente tem essa idade, é tudo muito estranho, é tudo muito desafiador, é tudo muito diferente de tudo o que a gente já viveu. Ou pelo menos é isso o que nos dizem. Pra mim foi tudo fácil. Pra cada menininha confusa que sofre com a adolescência, existiram horas e horas de conversa com você. Você que me preparou para tudo na vida. Você que me disse que as pessoas ruins no mundo só precisam de um pouco de amor. Você que me ensinou que sempre que a gente quer uma coisa, a gente precisa merecer. A gente precisa batalhar. Você que me dizia todos os dias que o maior inimigo que a gente tem nessa vida é a gente mesmo. Você que me falou que amor de verdade é gentil, carinhoso, não machuca e supera tudo. Você que me ensinou que o que importa é sempre fazer a coisa certa e dormir com a consciência leve, sem essa mentalidade fraca de “estou sendo passado para trás”.

    Nesse dia em particular, nos sentamos debaixo de uma árvore (que ainda existe), e você foi me contar da moça que tinha conhecido. Naquela época eu não sabia (mas sei que no fundo do seu coração você já sabia) que ela seria sua esposa um dia. Você geralmente não era muito detalhista sobre as garotas com quem saía. Mas dessa vez foi diferente.

    Eu lembro até a cor do vestido que ela estava usando naquele dia: roxo. Lembro da primeira coisa que ela te falou: “desculpa, mas esse assento está ocupado”. Sim, ela falou “assento”. Não falou “cadeira”, não falou “lugar”. Você gastou quase uma hora falando sobre aquele ser místico que tinha conhecido na noite passada, e eu lembro de imaginar um romance digno de Dickens. Ai você falou sobre como ela vinha de uma família humilde, e eu imediatamente imaginei a pequena Dorrit. Sabe o que você me ensinou naquele dia? A prestar atenção aos pequenos detalhes. A valorizar os pequenos sorrisos, as delicadezas, as gentilezas.

    Você falou algumas vezes, ao longo dos anos, mas naquele dia pela primeira vez: não liga para aquelas coisas que as pessoas falam quando estão cansadas, estressadas, chateadas. Ninguém está pensando claramente nessas horas. Ninguém toma cuidado na escolha das palavras nessas horas. As pessoas estão em um momento de desabafo emocional. A gente tem que entender. E tem que valorizar as pequenas coisinhas que as pessoas fazem quando querem agradar a gente. Mas agradar sem uma motivação maior. Agradar apenas por agradar. Seja um beijo na bochecha, seja uma ligação de bom dia, seja aquele copo d’água que você não pediu, mas ele trouxe para você. É tão raro hoje em dia, alguém que quer agradar apenas por agradar, só para te ver sorrir. E a gente nunca sabe o que fazer, exatamente, então faz essas coisinhas, que não são nada, mas falam tudo sobre uma pessoa.

    Não é brincadeira, eu lembro de tudo. A história da moreninha vertiginosamente inteligente. No fim da tarde você falou: “Luisa, eu achei a mulher da minha vida”. E deu aquele sorriso meio sem jeito, meio envergonhado pela confissão. Passou a mão no cabelo daquele jeito específico que você sempre passava quando ficava sem-graça. Ficou balançando a cabeça incrédulo, como se tentasse resistir fisicamente a essa ideia. E então falou: “irmanzinha, quê que tá acontecendo comigo?” E a gente ficou se olhando, sorrindo, e as lágrimas correram soltas.

    Você me ensinou que o amor é sempre gentil. Você me ensinou o valor das pequenas coisas. Você me ensinou que o medo é normal.

    Ai, queria eu ter deletado alguns dos detalhes de todos esses anos de convivência tão carinhosa, e abrir espaço para as trezentas informações que passam pela minha cabeça todos os dias. Talvez fosse menos triste pensar nesse jovem pai de família, um pai para mim também, de certa forma, que foi para esse sono eterno tão cedo. Em uma curva meio escura, em uma estrada meio esburacada no meio do nada.

    Foram tempos desvairados, os em que vivemos. E enquanto o mundo ria da minha teimosia monogâmica, da minha persistência em uma busca solitária e tortuosa por sentimentos verdadeiros, você se orgulhava. Enquanto eu tinha esse retrato de “menininha ingênua com as expectativas erradas da vida e atributos desperdiçados”, você me enxergava como… como é mesmo que você escreveu naquele dia? “Um sopro refrescante de calma e sinceridade no meio do caos”. Você mais tarde voltou a poetizar tudo. “Não é devassidão, é amor em excesso”.

    Te amei por tudo isso. Por ter se orgulhado de mim quando eu era insuficiente para o mundo. Só você entendia metade das coisas que eu falava. E você sempre esteve lá. Você me viu querendo imitar aquela cena da Doce Vida na fonte. Aliás, quem mais aguentava todas aquelas longas horas de diálogos cansativos na frente de uma TV comigo senão você? Quem mais saía para correr comigo às 3h da manhã quando eu sentia aquela inquietude, aquela vontade louca de sair por aí vendo a cidade atrás de uma dose extra de endorfina? E ouvia as horas e horas de treino no piano, errando cada nota, procurando uma perfeição inexistente com uma habilidade desperdiçada?

    Eu sei que não se deve procurar o justo ou a lógica nesse mundo. Mas sabe, em todas as outras vezes, na frente de todos os outros longos sonos, você esteve do meu lado. E do seu? Quando foi a vez de me despedir de você, quem estava lá? Quem é que me deu um abraço? Quem foi que seguiu comigo dali em diante, para apertar minha mão? Levei uns bons quatorze anos para, por um acaso total do destino te encontrar. Alguém que teve a paciência para aguentar aquela menina que só queria fazer piada com tudo e sempre negava os maus sentimentos.

    Por tanto tempo, você nunca me viu chorar. Foram bons anos. Anos de força, de luta, de persistência. Queria formar um caráter inquebrantável, me fazer estoica e forte. Até que consegui. Até que perdi minha base. Falar sobre perda virou tabu. Naquela época tava rolando aquele filme do menininho que perde o pai no 9/11, lembra? Depois que me ligaram falando da sua curva, da batida, do blábláblá, foi esse meu fim.O estômago revoltado, a força indo embora… Me sentaram na frente de uma TV com esse maldito filme e trezentos danoninhos, que era tudo o que eu conseguia comer, com aquele ácido me corroendo por dentro. Eles não me entendiam. Ninguém me conhecia como você. Se tivesse você para me fazer superar você, provavelmente teria colocado Casablanca, que não me faria chorar copiosamente, e me daria biscoitinhos com leite, que era tudo o que eu precisava para me consolar naquela época.

    Sei lá, as vezes é estranho quando não tem você por perto. Até certo ponto eu entendi a lição que você deixou: é preciso aprender a dizer adeus. E tudo, tudo nesse mundo é extremamente frágil e passageiro. A gente tem que saber viver a vida com essa simplicidade nossa, aproveitando ao máximo as pessoas que amamos, saboreando todas essas coisinhas que nós gostamos, mesmo quando essas coisinhas são tão banais como as que eu gosto: que são basicamente saborear uma comida boa e sair para dançar madrugada adentro.

    Mas sim, como eu disse, é estranho quando você não está ao meu lado. O mundo tá tão louco. Precisava que você estivesse aqui para compartilhar do meu espanto e terror. Cada vez mais os esforços das pessoas são encarados como sacrifícios, as pessoas preferem se comunicar através de celulares em vez de visitar os amigos, e a repressão sexual continua em alta. O amor livre ainda é uma noção abstrata para as pessoas. E ser espontâneo parece ser cada vez mais démodé. Enfim, tudo aquilo que incomodava a gente continua por aí.

    Mas o que mais me chateia é a nossa última conversa. Naquela festa na casa de sei-lá-quem, no meio da biblioteca. Eu estava em um período de superações, de buscas. Tudo isso terminou, terminou bem, e você não estava aqui para ver. Também lembro que eu estava um pouco desvairada e fiquei ali no sofá, falando todas aquelas coisas sem parar, sobre vida, sobre verdade, sobre expectativas. Balbuciei por meia hora, em um frenesi louco, e você apenas riu, sabendo da minha confusão mental. Aquele dia… Aquela conversa… Dá pra refazer tudo? Só queria te dizer que devo muito. Eu tenho total consciência disso. E ok, você foi. Eu sofri, depois fechei o livro e esqueci na cabeceira. Hoje resolvi abrir para dar uma folheada. Mas tá muito empoeirado, tá me fazendo mal. Deixa esse assunto para depois, pode ser?

    1 month ago  /  0 notes

  3. Foi uma coisa louca. O amor gentil, o toque suave, o olhar prolongado. Quem é que ainda me olhava desse jeito carinhoso? Ainda existem corações nesse mundo sanguinário? Ainda existe calma, nesse tumulto diário? Ainda se fala em amor?

    Cada um crê no que quer. Nesses tempos de ceticismo, tentei passar a vida atrás de uma máscara. Uma fantasia de estoicismo, de desapego.  Me diz mais uma vez que tudo vai ficar bem. Me diz mais uma vez que somos eternos nessa nossa aventura. Aventura de paixão, de pele, de sorrisos. Me diz que a felicidade é real.

    Amor… Quem foi que me disse uma vez que era tudo uma ilusão? O que é que eu repetia insanamente para todas as tentativas frustradas? Que era um mero construto social dos tempos modernos para abafar a eterna condição solitária das pessoas? Quem é que aquela minha cara de blefe enganava? 

    A vida segue. Mais uma vez eu grito que foi tudo uma grande farsa. Minha verdade é uma: sou uma romântica. Sou daquela geração de Álvares de Azevedo, hiperbólica, megalomaníaca, dramática. E agora, mais uma vez é diferente. E pela primeira vez eu sinto essa certeza aqui dentro. Pela primeira vez é suave, mesmo quando não é.

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  4. Dois

    Eu te procurei por ai, em todos os rostos e em tantas esquinas da vida. A moça não tinha como imaginar que te encontraria ali, esparramado na nossa cama, no meio das cobertas, cheio de boas vontades, de longos e quentes carinhos, de sorrisos contidos e raras risadas. Minha megalomania, meu pecado por excessos, dramas, vozes altas, gargalhadas reviberantes e descontroles jamais pode conceber a ideia de atrair sensatez. No entanto, aqui estamos. Dois bobos. Duas crianças novamente. Dois sonhadores. Dois românticos. Dois apaixonados.

    6 months ago  /  0 notes

  5. Se as paredes falassem, se os segredos protegidos pela segurança do quarto fossem descobertos e aqueles sussurros fossem revelados…

    A obviedade é um sem fim de sordidez e encontros escusos, de coisas fáceis, falta de significado, vários e repetidos rostos intimidados. Muita diversão, algumas garrafas jogadas pelo chão, roupas esquecidas em um canto. Aquela embriaguez que ajuda tudo a ficar mais confortável, que força uma intimidade inexistente. A velha receita repetida todas as noites por tantos e tantos anônimos que procuram uma fagulha de emoção.

    Mas ali, no meio desse sem fim de desencontros, de enganos e infortúnios, também é possível ver uma manhã de sábado sorridente, raios de sol entrando despercebidos pelas persianas, iluminando dois corpos exaustos jogados no meio dos lençóis. É possível ouvir aquela velha conversa sobre nada e sobre tudo, o papo de travesseiro tão conhecido por todos os bobos que sonham com corações acelerados e carícias fiéis e companheiras.

    O que a madrugada escondeu, o que o afoito, o desesperado frenesi por um primeiro contato fez desajeitado, ainda que bonito e único, o tempo fez íntimo, fez calmo, fez palpitante, fez trepidante.

    9 months ago  /  0 notes

  6. Não quero ninguém que ache meu passado bonito. Não quero ninguém que me pergunte nomes, números, se fiz ou não fiz. Quero alguém que entenda que sou um resultado de um sem fim de erros, tropeços, engasgos, sorrisos compartilhados, momentos divididos. Tem gente que ajudou na construção dessa garota. Tem gente de quem eu nunca vou largar mão. Mais: o fato de eu ter cometido erros no passado não quer dizer nada. Se isso tudo tem algum significado é apenas que os vivi, e agora, com a distância necessária, sei reconhecer que foram erros.

    11 months ago  /  4 notes

  7. A gente naquele quarto alugado, com um charuto pela metade esquecido em um canto. O paletó surrado no sofá, a menina com olhar blasé esquecida na varanda e o corpo de um quase-príncipe jogado na cama. O sentimento era demais para aqueles poucos metros quadrados, deixando tudo irrespirável, 24h por dia, dia após dia, até que o esconderijo do amor explodiu e o que sobrou foram resquícios de um carinho eterno.

    1 year ago  /  1 note

  8. Chapter 1 (drafts and scrambles)

    “Ninguém sabia se divertir como ela. Ela cantava dormindo, coloria o céu de tantas cores, acordava sorrindo, escrevia sobre estrelas, mas ainda assim…”

    Todo mundo que a conhecia sabia do seu problema crônico de confianças, de medos, de inseguranças. Caçou mais de mil canalhas, colecionou amores frustrados.  A cama que menos frequentava era a sua. A cena mais clichê dessa cidade era entrar em uma festa ou em um restaurante e vê-la com algum desconhecido, sempre um rosto diferente, com os braços ao seu redor. A risada escandalosa, o brilho nos olhos… Fazia barulho, era uma pequena menina dentro da cabeça de uma mulher.  Como os iguais se entendem, era também uma canalha, fazendo tudo o que não devia, desmerecendo sentimentos mais nobres e desrespeitando solenidades. Não sabia levar nada nem ninguém a sério, até que…

    Eu nunca odiei tanto a minha fama. Eu, que nunca me preocupei com o que ninguém pensava, porque nunca fiz questão da aprovação nem do amor de ninguém, me vi encurralada. Por dois meses o coloquei dentro de uma bolha. Passávamos os finais de semana na chapada, enfrentando a solidão. Ele achava que era minha paixão por aqueles cenários paradisíacos, pelo isolamento. Não era. Que o sol brilhasse mais forte do que em qualquer outro lugar ou que o som desaparecesse ali no horizonte, isso era detalhe. Eu só queria acordar todos os dias ao seu lado, e não tinha nada que fosse fazer um conservador como ele suportar o peso do meu nome.

    Não o apresentei a nenhum dos meus amigos. Ninguém que pudesse gritar a verdade, que ele estava cometendo um erro. Foi bem assim mesmo. Dois meses trancados no nosso mundinho. Não vou ficar aqui falando sobre os sorrisos bobos, sobre ele afastando aquela mecha teimosa dos meus olhos, dos beijos no pescoço, dos sussuros no meio da noite, da vontade que nunca tinha fim. Não vou falar de todas as vezes em que você me acordou no meio da noite apenas para dizer “eu te amo” e me dar um abraço mais forte. Isso não se fala. Não se fala de todas aquelas brincadeiras bobas de adolescente que nos faziam ficar ali, para sempre, escondidos nos nossos 20 metros quadrados, sem nem ver o tempo passar, sem saber se despedir, sem saber pensar em mais nada.

    E enquanto isso acontecia, enquanto nossa vida se fechava, o mundo lá fora mudava.  O mundo lá fora acabava. Pegava fogo. Eu não senti falta. No início. Naqueles dois meses de maravilhas, de café da manhã na cama, de noites enfrentadas acordados, de filmes estranhos, de tanto carinho. E ai o contato inicial. Aquele jantar. Lembro como se fosse hoje.  Você só queria comemorar o meu grande dia, minhas conquistas. Eu tive um pressentimento tão ruim. Dei um pulo da cama e pedi para a gente pegar a estrada. Você riu e falou: “amanhã a gente precisa trabalhar”. Eu não queria te ouvir, só pedia, implorava, “vamos embora”.

    E então, meia hora depois, lá estávamos nós, no restaurante que você achava que eu iria amar. Eu já conhecia aquele lugar, meu bem. Já tinha sentado naquela mesa, com tantas outras pessoas, pedido o mesmo vinho, ouvido a mesma piada sobre o nome do restaurante. Já tinha até um sinal combinado com o garçom, para quando o encontro não rendia e eu queria fugir desesperada. Pior: eles também conheciam isso tudo. Sim, “eles”, os meus amigos, as pessoas que passaram quatro anos suportando minhas loucuras, minhas bipolaridades e minhas insônias.

    Lá estava eu, fazendo de conta que estava adorando tudo, fazendo de conta que nunca tinha comido aquele prato, que não conhecia o vinho, que tinha me surpreendido com minha música predileta tocando no lugar, sendo que o CD tinha sido um presente meu para o dono. Trinta minutos depois, chegam “eles”.

    Ricardo, com seu bom senso, me olhou de longe, sorriu, e sentou em uma mesa. Acendeu o cigarro e soprou na minha direção, me tentando. Fazia mais de um ano que eu tinha parado. Rodrigo, quando me viu, ficou feliz. Quando viu que eu estava acompanhada, fechou a cara. Fernandinha, Paty Zen e Tiago me viram, mas me ignoraram.

    A mesa estava insuportável, eles ficavam ali, fazendo barulho, fumando, bebendo, comendo, falando sobre todas aquelas pessoas que eu tinha esquecido, reclamando dos filmes entediantes que tinham visto durante o dia, procurando alguma festa interessante, na casa de algum fulano, para melhorar a noite.

    E então Rodrigo levantou. Foi até o balcão e pegou uma garrafa de uísque, puxou uma cadeira e sentou bem no meio de nós dois, do casal quieto, na extremidade do restaurante. Me ofereceu um cigarro. Eu fiquei ali, te olhando, e você falou para eu me sentir a vontade. Dei o primeiro trago e meu corpo inteiro pareceu liberar a tensão acumulada na última hora. Ele encheu três copos, e bebemos como se nunca tivéssemos bebido antes.

    Acordamos no tapete de uma sala desconhecida, na casa de não-sei-quem, e nos arrastamos, derrotados, para nosso quarto, nosso porto seguro. Era para ter parado ai. Nosso fogo ardia. Você, assim como eu, tinha um passado, e quando vi, estávamos os dois no fundo do poço. Como tolerei suas noites de cocaína e seu legado de miséria é um mistério.

    1 year ago  /  0 notes

  9. SMACK!

    Já pode fazer um post cafona, brega e mega sentimental? Amo vocês. Vocês três. E por que isso agora, vocês perguntam? Não tem muito explicação não…

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    Amo porque tava aqui, em um pequeno inferninho de desespero e comecei a rir loucamente em trinta mil mídias sociais, por causa dessas nossas manias de “loucuras a qualquer hora”. 

    Amo porque é por causa de vocês que carrego meu celular 24hs ligado, sempre checando pra ver se tem alguém falando alguma coisa. Sim, por causa de vocês, não por causa de nenhum homem (tadiiiinhos) que acha que algum dia vai ser tão importante quanto vocês.

    Por que já tive dias em que tudo, tudo foi horrível. Teve dias em que queria chegar em casa, me afundar na cama e chorar, do tanto que as pessoas conseguem ser ruins com a gente, mas daí vinha uma daquelas pérolas de vocês, vocês que não tem fim, não tem começo, vocês que me fazem rir das coisas mais sem sentido, mais improváveis, das desgraças alheias, da falta de bom senso desse mundo, dos absurdos, de tudo. 

    Amo porque poxa… Quem mais me proporcionou momentos tão loucos, tão divertidos, daqueles que as vezes eu conto para alguém e NINGUÉM acredita? Quem mais? Poxa…

    Amo porque não tem igual… Porque nas minhas burradas, nas minhas recaídas de amor, nas minhas vontades sem explicação, nos meus desejos questionáveis, nas minhas saudades, nas minhas carências, nas minhas saudades, nos meus momentos solitários, nas minhas dúvidas, nas minhas indecisões, nas minhas conquistas, nas minhas espontaneidades, nos meus sonos… Sei lá, cara… No pôr e no nascer do sol, no almoço, no café da manhã, no jantar, em Sampa, no Rio, em Bsb… porque sempre, sempre, sempre eram vocês, ali. 

    Não tem ninguém pra quem posso contar nada como posso contar para vocês. Pra vocês que sabem tudo, tudo, TUUUDO o que eu curto, em todos os sentidos possíveis, pra vocês que de manhã só dá frans, e todo aquele meu ritual de pedir, isso, aquilo, sentar naquela mesa por isso e aquilo, mesmo que esteja frio, que sabem que quando vem aquele perfume, tá na hora de olhar pro lado e procurar. Pra vocês que já tiveram longas conversas, altamente detalhadas comigo na mesa do out back em uma noite, em que eu descobri que não era a garota mais estranha do mundo, porque tem outras duas estranhas que pensam e querem experiências como as minhas, pra vocês que sabem qual perguntinha do garçom que me faz surtar sempre que estou comendo em um restaurante. Pra vocês que conhecem o ponto da minha carne, que sempre tomam o restinho da minha cerveja quando a gastrite ataca (aliás, pra vocês que me aguentaram tantas vezes: hoje não dá, tô passando mal). Pra vocês que sabem que de vez em quando eu faço burradas e começo a olhar fotos estúpidas (não, ainda não apaguei). Pra vocês que me fazem sorrir com cada conquista de vocês como se fossem minhas. Pra vocês que conversam sobre qualquer coisa, que tem opiniões sobre tudo e sempre deixam meu dia mais bonito. Pra vocês que são lindos, que se destacaram em um mundo de gente chata, sem graça, desinteressante. Pra vocês que sempre tem ânimo para fazer qualquer coisa. Pra vocês que me aguentam falando sobre um filme durante meses sem parar, pra vocês que me mantem rindo nos dias ruins, e que comemoram comigo nos dias felizes. Pra vocês, que adoro pela mente aberta, pela vontade inesgotável de experiências novas. Pra vocês que eu espero que não sumam, que não me tirem o privilégio de continuar tendo do meu lado todos os dias. Pra vocês que sempre precisam aguentar os malas que eu arranjo (se bem que só apresento os legais para vocês, vaaaai!), e que sempre me dão o selo de aprovação antes de eu sequer começar a pensar em levar alguém a sério. Pra vocês que precisam ouvir detalhes estúpidos sobre sei lá quantos caras, e que nem se impressionam mais com nenhuma das besteiras que eu digo…. porque no fundo vocês falam até mais do que eu. Porque até hoje nunca consegui ser mais “eu” com ninguém do que com vocês. Porque se eu acordo sem o bom dia de vocês, meu dia já fica meio estranho. Porque falo de tudo, de coisas inconfessáveis a qualquer outra pessoa, e vocês me fazem rir, mesmo corando de vergonha. Porque um dia tivemos a infeliz ideia de fazer um joguinho de verdades em uma festa, e daí para a frente falamos verdades demais. Porque vocês são os loucos mais sensatos que já conheci.

    Pro Rapha, que vai ensinar meus filhos a falar palavrão, que vai carregar para o teatro, que vai me ajudar a ensiná-los a amar os clássicos do cinema. Que vai cuidar da catapora, que vai ficar do lado do meu marido em todas as nossas brigas (porque tenho a impressão que eles irão se amar, ou pelo menos é o que espero), que vai me receber na sua casa, lá em Copacabana umas três vezes por ano. Meu próximo Woddy Allen (no quesito humor, com certeza) que irá fazer de nossas vidas um grande dramalhão para a televisão. Acho que vai ter uma fase meio chata… meio Godard…que perdoarei pois amo loucamente.

    Pra Erica, que me conhece melhor que qualquer pessoa nesse mundo, com quem falo diariamente, com quem divido muitas coisas…. (muitas coisas mesmo!) Com quem tive meus momentos mais retardados, e o mais importante, mais divertidos até hoje. Capaz de me fazer rir sem esforço nenhum. Tadinha. Fico rindo até dela sofrendo. Seja com os soluços, com o homem-aranha, com pesadelos, com a unha, com o cabelo… Amo. Amo, amo, amo. Me aguenta DEMAIS. 

    Pra Camila, a pessoa mais criativa que conheço, que sempre tá aí, dando grandes ideias, querendo fazer sempre tudo de um jeito diferente, tirando o tédio da vida. Que é uma fofa, um liiiiinda, sempre pensando na gente! Que tá sempre a uma mensagem de distância, para socorrer nas horas do desespero. Que sempre topa minhas ideiais loucas e de última hora, do tipo: “Temos vinte centavos no bolso… bora almoçar no outback? Tô passando ai em cinco minutos ;)” Quebrando tabus e barreiras culturais, pois é a única pessoa que não curte muito uma carne, mas que eu amoooooooo!

    Pensem no amor e não me matem pelas fotos ;)

    E ignorem o corte tosco, preciso terminar minha monografia hoje =P

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    1 year ago  /  0 notes

  10. To every new kid waiting to mess with my head

    Não me obedeça sempre. Eu adoro ser contrariada. Não herde aqueles velhos hábitos dos nossos pais, de deixar as coisas passar. Não quero alguém que me suporte, que me ature, que me faça concessões. Quero alguém que se imponha e que saiba exatamente o que quer.  Tenho minha vida própria, o que significa que quando eu digo: “Passei o dia inteiro pensando em você” (e acredite, eu digo isso sempre), a verdade é que eu não pensei em você em nenhum momento do meu dia, mas quando te vi fiquei desesperada à mera realização de que o dia inteiro foi desperdiçado sem você ao meu lado. Pode não ser verdade, mas é o que eu sinto.

    Me abrace mais. Minta mais, falando sobre minha beleza estonteante e meu sorriso. Amo meu sorriso e amo quem o nota. Não seja permissivo com as palavras. Não me engane. Não sinta necessidade de mentir. Não ligo se você fuma, se você pegou três loirinhas na noite passada, se bebeu até lamber o chão, se prefere passar o final de semana com seus amigos do que comigo. O que me irrita, o que me tira do sério, é não saber de nada disso. É me sentir como se estivesse fazendo o papel de otária, sem ter a menor ideia do que você anda fazendo com sua vida, achando que eu sou prioridade quando na verdade sou apenas uma diversão.

    Você é apenas uma diversão. Aceite isso, o quanto antes melhor. Pode ser que eu sinta saudades daquele seu abraço reconfortante. Pode ser que eu passe noites e noites adormecendo apenas nos seus braços e te chamando de “meu bem”. Admito que são poucos os que ocupam esse espaço na minha vida, assim como são raríssimos os que conseguem ver o meu lado carinhoso, que guardo a sete chaves. O caso é que no fundo, você é passatempo, assim como eu sou para você. O que eu levo a sério é tão grande, tão enorme, que se fosse você, acredite, o mundo inteiro saberia. Quando eu levo a sério as coisas escalam a um nível desesperador, e eu te faço não apenas a pessoa mais feliz do mundo, mas me entrego em níveis que chega me assustam. Então, não. Você não é “ele”. Você é mais um. E não se preocupe, não fique queimando neurônios com isso. Esse tipo de coisa depende exclusivamente de mim, não há nada que você possa fazer para mudar. E aproveite. Ser apenas minha diversão já é algo inesquecível.

    De forma prática e sincera: eu sou insuportável. Passei minha vida me cercando de homens que me veneravam, o que significa que sou mimada e estupidamente confiante. Eu não aceito migalhas. Sou daquelas que mesmo quando te dá as costas, espera que você apareça de surpresa me abraçando. Gosto de surpresas, de gentilezas, de elogios, de gente que pensa em mim 24h. Que sonha comigo. Que me quer o tempo todo. Gosto de gente que abre portas, que está sempre com os braços ao meu redor, que me puxa pela cintura, que sussurra delicadezas no pé do ouvido, que me come como se fosse seu último dia de sua vida e eu fosse a mulher mais espetacular do planeta.

    Para esclarecer: Não sei dividir. Eu sou mesmo chata. Coloco etiquetinhas em potes de iogurte na geladeira, e tenho o meu lado na cama. Mas uso suas roupas, seu gel para cabelo, sua pasta de dente, como sua comida, mudo o canal da televisão quando você está assistindo um filme – bem na parte mais dramática-, não deixo que folheie os meus cadernos… Mas aprenda a lidar e seremos uma daquelas duplas insuportáveis que está o tempo todo rindo, brincando um com o outro e fazendo piada com tudo.

    E sim, me surpreenda, o tempo todo. Sou do tipo que passou os últimos cinco anos revirando essa cidade, conhecendo cada buraco e cada personalidade diferente. Já conheci a vista mais bonita da cidade, já encontrei aquele xamã no alto de um monte em Cavalcante, já comi morango assistindo a uma encenação genial de Para onde vão os trens. E sim, morro de tédio do comum, do rotineiro. Não entendo gente que vai sempre nas mesmas festas, com as mesmas pessoas. Gosto de mesclar minha semana. Saio todos os dias, sempre com alguém diferente a tira colo. Vou pro samba, pro house, pro jazz, pro chorinho, pro blues, pro sertanejo, pro teatro. Já andei com esses senhores que se trancam para assistir e discutir de óperas, já participei de pelo menos três clubes de leitura diferentes. E não, não esgotei essa cidade. Gosto de escalar, de fazer SUP em manhãs ensolaradas, de correr na areia, de dirigir um 4x4 no meio da lama. Nunca tive paciência para TV, então por favor, não me chame para ficar de preguiça no sofá. Me leva pra ver a vida lá fora, me leva pra viver debaixo do Sol.

    1 year ago  /  0 notes